Reforma tributária pode elevar imposto sobre consumo no Brasil acima de 30%
Publicado em · Fonte: g1

A reforma tributária brasileira está no centro de um novo debate sobre o peso dos impostos pagos pela população e pelas empresas. Uma proposta do Tribunal de Contas da União (TCU) aponta que a alíquota da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo federal que substituirá impostos atuais, poderá chegar a 11,3% em 2027, elevando as projeções para a tributação total sobre o consumo a um patamar superior a 30% quando o novo sistema estiver plenamente implantado.
A estimativa chama atenção porque coloca o Brasil diante da possibilidade de adotar uma das maiores alíquotas de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) do mundo. O cenário também reacende discussões sobre justiça tributária, custo de vida, competitividade empresarial e a necessidade de equilibrar as contas públicas sem aumentar ainda mais a pressão sobre os consumidores.
Reforma tributária e a proposta de alíquota da CBS
O cálculo apresentado pelo TCU considera a necessidade de preservar o nível de arrecadação obtido atualmente com os tributos que serão substituídos pela reforma. Entre eles estão o Programa de Integração Social (PIS), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e grande parte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI).
A proposta de 11,3% para a CBS representa uma diferença relevante em relação às projeções divulgadas anteriormente. Estimativas do governo federal, de consultorias especializadas e de representantes do sistema tributário indicavam percentuais inferiores, o que demonstra como o cálculo da nova carga tributária ainda depende de diferentes variáveis.
A definição da alíquota de referência será uma etapa importante para a implementação do novo modelo. O Congresso Nacional terá participação nesse processo, enquanto o Senado deverá estabelecer o percentual definitivo dentro do calendário previsto para a transição tributária.
É importante compreender que a CBS não será o único componente do novo imposto sobre o consumo. A reforma também prevê o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), compartilhado entre estados e municípios, formando um sistema de tributação que substituirá gradualmente diferentes cobranças existentes.
Imposto sobre consumo no Brasil pode superar 30%
Uma das maiores preocupações relacionadas à reforma é a possibilidade de a alíquota total do novo sistema ultrapassar 30% a partir de 2033, quando a transição estiver concluída. Essa projeção considera a soma da CBS federal com o IBS estadual e municipal, levando em conta as estimativas disponíveis para o funcionamento integral do modelo.
Caso esse percentual seja confirmado, o Brasil poderá superar as alíquotas gerais de tributação sobre o consumo praticadas em diversos países desenvolvidos. Comparações internacionais indicam que a média dos países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é consideravelmente menor.
Entretanto, comparar alíquotas isoladamente exige alguns cuidados. Cada país possui características próprias de arrecadação, benefícios fiscais, estrutura econômica e distribuição dos impostos entre consumo, renda e patrimônio.
O governo brasileiro argumenta que a carga tributária atualmente embutida nos preços já é bastante elevada. O problema é que o modelo antigo possui mecanismos complexos de cobrança, incluindo impostos calculados sobre outros tributos, dificultando a identificação precisa do percentual efetivamente pago pelo consumidor.
Com a reforma, a proposta é adotar uma cobrança por fora, permitindo que os tributos sejam apresentados separadamente do preço dos produtos e serviços. Essa mudança poderá proporcionar mais transparência nas notas fiscais e facilitar a compreensão sobre quanto do valor desembolsado corresponde à tributação.
Por que a alíquota brasileira pode ficar tão elevada
Um dos fatores que ajudam a explicar as projeções é a decisão de preservar o volume de arrecadação dos impostos sobre o consumo. Como a reforma não foi estruturada para provocar uma redução automática da carga tributária, a substituição dos tributos atuais precisa considerar o dinheiro necessário para financiar as despesas públicas.
Outro elemento importante está relacionado às exceções aprovadas durante a tramitação da reforma no Congresso Nacional. Determinados produtos e serviços receberam tratamento tributário favorecido, incluindo alíquota zero ou reduções, o que pode exigir uma tributação maior sobre as atividades que permanecerem submetidas à alíquota padrão.
A cesta básica está entre os grupos contemplados com benefícios, assim como determinados medicamentos e dispositivos médicos. Também foram previstas reduções para segmentos como educação, saúde, atividades culturais, produções audiovisuais, esportes e algumas profissões regulamentadas.
Embora essas medidas tenham justificativas sociais e econômicas, elas produzem consequências na distribuição da arrecadação. Quando determinados setores pagam menos impostos, a manutenção da receita total pode exigir percentuais mais elevados de outros contribuintes.
Esse mecanismo levanta uma questão importante: até que ponto as exceções realmente atendem às necessidades da população? No caso dos alimentos, por exemplo, o benefício tributário pode favorecer consumidores de diferentes faixas de renda, inclusive aqueles que não dependem de incentivos para adquirir produtos essenciais.
Por isso, a discussão sobre a reforma não deve ficar limitada ao tamanho da alíquota. Também é necessário avaliar quais setores recebem benefícios, como os descontos chegam ao consumidor e se as medidas contribuem efetivamente para reduzir desigualdades.
Impactos dos impostos sobre consumo para famílias e empresas
A elevada tributação sobre bens e serviços possui uma característica particularmente preocupante: seu efeito sobre as famílias de menor renda. Isso acontece porque pessoas que recebem salários menores costumam destinar uma parcela maior de seus recursos à alimentação, ao transporte, à energia elétrica e a outras despesas essenciais.
Quando os impostos estão concentrados no consumo, o impacto proporcional tende a ser mais pesado para quem possui menos dinheiro disponível. Esse fenômeno é conhecido como e representa um dos principais desafios da estrutura fiscal brasileira.
Dados da arrecadação brasileira mostram que os tributos incidentes sobre bens e serviços representam uma parcela expressiva da carga tributária nacional. Em contrapartida, a participação dos impostos sobre renda, lucros e ganhos de capital permanece relativamente menor quando comparada à realidade de diversos países desenvolvidos.
Para as empresas, uma alíquota elevada também pode representar desafios importantes. Dependendo da atividade econômica, o custo tributário pode influenciar preços, investimentos, contratação de funcionários e capacidade de competir com produtos importados.
Pequenos negócios merecem atenção especial nesse cenário, pois possuem estruturas financeiras diferentes das grandes companhias. Mesmo com mecanismos de compensação de créditos previstos no novo sistema, a adaptação às regras exigirá planejamento contábil, revisão de contratos e compreensão das novas obrigações fiscais.
Simplificação tributária não garante redução de impostos
A principal promessa estrutural da reforma tributária está relacionada à redução da complexidade do sistema brasileiro. Durante décadas, empresas e profissionais precisaram lidar com diferentes legislações, regras estaduais, obrigações acessórias e interpretações sobre a incidência de tributos.
A criação de um modelo baseado na CBS e no IBS pretende diminuir parte dessas dificuldades. A expectativa é facilitar a apuração dos impostos, reduzir conflitos relacionados à tributação e permitir maior transparência nas operações comerciais.
Entretanto, simplificar a cobrança não significa resolver automaticamente os problemas fiscais do país. O tamanho da dívida pública, o crescimento das despesas obrigatórias e a necessidade de financiamento dos serviços públicos continuam influenciando as decisões sobre arrecadação.
Nesse contexto, a reforma tributária precisa ser acompanhada de uma discussão mais ampla sobre eficiência dos gastos públicos e equilíbrio das contas governamentais. Sem avanços nessas áreas, a modernização do sistema poderá melhorar os procedimentos, mas dificilmente produzirá um alívio significativo para contribuintes e consumidores.
Também será fundamental acompanhar como as alíquotas serão definidas durante o período de transição. Mudanças nas estimativas de arrecadação, no comportamento do consumo e nos benefícios concedidos poderão influenciar os percentuais finais.
O Brasil tem a oportunidade de modernizar uma estrutura tributária historicamente complexa, mas o sucesso dessa transformação dependerá da capacidade de distribuir os encargos de maneira mais justa. Uma reforma eficiente não deve ser avaliada apenas pela quantidade de impostos substituídos, mas também pelos efeitos concretos sobre o cotidiano da população.
Conclusão
A possibilidade de o novo imposto sobre consumo ultrapassar 30% coloca em evidência uma das principais contradições da reforma tributária: o país busca simplificar a cobrança de impostos, mas pode continuar apresentando uma das maiores cargas sobre o consumo entre as economias desenvolvidas.
O resultado dependerá das alíquotas definitivas, das regras de transição e da maneira como os benefícios fiscais serão aplicados. Mais do que acompanhar os percentuais anunciados, consumidores, empresários e representantes da sociedade precisam observar se o novo modelo realmente oferecerá transparência, segurança jurídica e maior equilíbrio na distribuição dos tributos.
A modernização tributária será verdadeiramente positiva quando conseguir combinar eficiência na arrecadação com justiça social. Afinal, um sistema fiscal não deve apenas garantir recursos ao Estado, mas também respeitar a capacidade de contribuição de cada cidadão e favorecer um ambiente econômico mais saudável para o desenvolvimento do país.