De 24 a quase 10 mil hectares: a história de uma família que transformou o Paraná com pinus
Publicado em · Fonte: gazetadopovo

Uma iniciativa familiar iniciada em uma pequena propriedade rural no Paraná transformou-se em um empreendimento florestal de grande porte, que hoje administra 9.860 hectares de florestas próprias de pinus. Ao longo de quatro gerações, a família Scheffer construiu uma trajetória marcada pelo planejamento de longo prazo, pela modernização tecnológica e pela continuidade de um negócio que exige paciência para produzir resultados. O que começou em 1974, com apenas 24 hectares plantados, tornou-se a base da Águia Florestal, empresa que também atua no processamento industrial da madeira e emprega aproximadamente 460 trabalhadores.
A história chama a atenção não apenas pela expansão territorial, mas principalmente pela capacidade de manter um projeto produtivo durante décadas. Na silvicultura, o resultado de uma decisão tomada hoje pode beneficiar pessoas que ainda estão começando a vida profissional. Essa característica tornou o empreendimento um exemplo de sucessão familiar associada ao desenvolvimento econômico e ao aproveitamento sustentável dos recursos florestais.
A origem da família Scheffer na produção de florestas de pinus
O início da atividade ocorreu quando Ferdinando Scheffer Júnior e seu irmão Frederico decidiram investir no plantio de pinus em Ipiranga, município localizado nos Campos Gerais do Paraná. Na época, o empreendimento era pequeno e dependia diretamente do envolvimento dos familiares nas tarefas cotidianas. Álvaro Luiz Scheffer, que tinha apenas 13 anos quando o primeiro plantio começou, acompanhou de perto o desenvolvimento da iniciativa e passou a assumir responsabilidades progressivamente.
Em 1976, os irmãos adquiriram uma propriedade de 121 hectares em Itaiacoca, distrito de Ponta Grossa, ampliando as possibilidades de produção. Como os fundadores também trabalhavam em uma fábrica, parte da administração da propriedade ficou sob a responsabilidade de Álvaro, ainda adolescente. Sua rotina envolvia deslocamentos frequentes, acompanhamento dos trabalhadores, organização de compras e controle dos serviços realizados na fazenda.
A experiência prática despertou seu interesse pela atividade florestal e contribuiu para sua escolha profissional. Aos 18 anos, Álvaro mudou-se para Curitiba para estudar Engenharia Florestal, buscando conhecimentos técnicos que pudessem fortalecer o negócio familiar. Embora a família tenha enfrentado dificuldades econômicas e precisado interromper temporariamente as atividades em 1982, o projeto foi retomado em 1987.
Esse período demonstra como empreendimentos rurais de longo prazo precisam enfrentar não apenas desafios relacionados ao clima e à produção, mas também oscilações econômicas e dificuldades de financiamento. A continuidade depende de planejamento, capacidade de adaptação e disposição para preservar investimentos mesmo quando os resultados não aparecem imediatamente.
Da atividade rural à indústria de processamento de madeira
Um dos momentos mais importantes da trajetória ocorreu em 6 de fevereiro de 1993, quando a família inaugurou a operação da Águia Florestal Indústria de Madeira. A decisão representou uma mudança significativa na estratégia empresarial, pois permitiu avançar além do cultivo das árvores e incorporar etapas de transformação da matéria-prima. Com isso, a família passou a participar de uma parcela maior da cadeia produtiva da madeira.
No começo, o processamento exigia bastante esforço manual e experiência dos trabalhadores. As árvores eram derrubadas com motosserras, e as toras precisavam ser classificadas conforme suas dimensões e possibilidades de utilização. As peças mais grossas eram destinadas às serrarias, enquanto partes menores passavam por cortes específicos, descascamento e secagem antes de serem comercializadas.
Com o passar dos anos, a evolução tecnológica modificou profundamente essa realidade. A entrada de Álvaro Luiz Scheffer Júnior na empresa trouxe novas perspectivas de modernização, especialmente na área de engenharia florestal. A substituição de métodos tradicionais por máquinas especializadas permitiu melhorar o aproveitamento da madeira e reorganizar diferentes etapas da operação.
Atualmente, equipamentos mecanizados conseguem executar atividades como corte, processamento e movimentação das árvores. Essa transformação contribui para reduzir a exposição dos trabalhadores a operações perigosas, diminuir determinados custos e ampliar a produtividade. Entretanto, a mecanização precisa considerar as características de cada propriedade, já que terrenos muito inclinados podem impedir o uso de algumas máquinas.
A modernização também alcançou a produção de mudas e o melhoramento genético. Os métodos antigos deram lugar a recipientes mais adequados ao desenvolvimento das plantas, substratos específicos e materiais genéticos selecionados. O investimento em pesquisa e o desenvolvimento de um pomar próprio de sementes ampliam as possibilidades de produzir florestas com características adequadas aos diferentes objetivos comerciais.
Silvicultura de pinus exige planejamento e visão de longo prazo
Uma das principais particularidades do cultivo de pinus é o tempo necessário para recuperar o investimento. Dependendo do manejo e da finalidade da madeira, o ciclo de produção pode variar entre 12 e 20 anos. Isso significa que o produtor precisa organizar suas finanças considerando um intervalo bastante diferente daquele encontrado em culturas agrícolas de ciclo curto.
Por essa razão, as florestas plantadas podem funcionar como uma reserva patrimonial para propriedades rurais. A madeira representa um ativo que poderá ser comercializado futuramente, oferecendo recursos para financiar novos investimentos, adquirir equipamentos, ampliar terras ou complementar a renda familiar. Essa característica também ajuda a diversificar as fontes de receita de produtores que dependem de atividades sujeitas a oscilações climáticas e de mercado.
Entretanto, transformar uma área em floresta comercial exige planejamento técnico desde a preparação do terreno até a colheita. A escolha das espécies, a qualidade das mudas, o espaçamento entre árvores e os cuidados durante o desenvolvimento influenciam diretamente o resultado econômico. Também é necessário avaliar as condições do solo, o relevo, a disponibilidade de infraestrutura e a distância dos compradores de madeira.
Outro aspecto importante é o manejo florestal realizado durante o crescimento das árvores. Os desbastes permitem retirar parte dos indivíduos para favorecer o desenvolvimento dos exemplares restantes e direcionar a produção para diferentes dimensões e aplicações. Dessa maneira, a floresta pode gerar produtos em etapas distintas, sem depender exclusivamente do corte final.
A experiência da família Scheffer mostra como a combinação entre conhecimento técnico e planejamento financeiro pode sustentar uma atividade por várias décadas. A manutenção de negócios em outros segmentos também ajuda a equilibrar os diferentes prazos de retorno dos investimentos, considerando que a produção florestal exige capital comprometido por períodos prolongados.
Sucessão familiar e futuro das florestas plantadas no Paraná
A continuidade do empreendimento ganhou uma dimensão especial com a participação das novas gerações. Álvaro Júnior assumiu a diretoria florestal e passou a acompanhar áreas que foram plantadas no início de sua carreira profissional e que agora se aproximam da fase de corte final. Seu trabalho envolve observar os resultados das decisões anteriores e preparar as propriedades para receber novos plantios.
Essa lógica também está presente na participação de Leonardo Scheffer, de 15 anos, que acompanha o pai, o avô e o bisavô nas visitas às propriedades. Seu interesse em aprender sobre a atividade demonstra que a sucessão não acontece apenas pela transferência de patrimônio, mas também pela transmissão de conhecimentos, responsabilidades e valores construídos ao longo do tempo.
A participação dos jovens pode contribuir para incorporar novas ideias, tecnologias e formas de administrar o negócio. Em setores que dependem de investimentos duradouros, a preparação dos sucessores é especialmente importante, pois as decisões precisam considerar horizontes que ultrapassam os interesses imediatos de uma única geração.
Além disso, a produção de madeira plantada possui relevância para diferentes segmentos industriais, que utilizam essa matéria-prima na fabricação de produtos e no abastecimento de suas operações. Empresas florestais estruturadas ajudam a organizar o fornecimento, gerar empregos e movimentar a economia das regiões onde estão instaladas.
A expansão da Águia Florestal também evidencia a importância da profissionalização na gestão de empresas familiares. A experiência acumulada pelos fundadores, a formação técnica dos descendentes e a incorporação de equipamentos modernos contribuíram para transformar uma iniciativa rural em uma operação industrial de grande porte.
A trajetória da família Scheffer mostra que o desenvolvimento florestal depende de uma combinação de paciência, conhecimento e capacidade de renovação. Mais do que ampliar áreas plantadas, o desafio é garantir que cada ciclo produtivo deixe condições adequadas para o seguinte, incorporando melhorias e respeitando as particularidades de cada propriedade.
No futuro, a continuidade desse modelo dependerá da integração entre tecnologia, responsabilidade ambiental, eficiência econômica e formação de profissionais preparados. A história iniciada com 24 hectares no interior paranaense demonstra que projetos construídos com visão de longo prazo podem atravessar gerações e alcançar dimensões expressivas. Nesse contexto, o maior legado da família não se resume aos milhares de hectares cultivados, mas à capacidade de transformar o trabalho de uma geração em oportunidades para as próximas.