PEC da Segurança Pública é aprovada no Senado e prevê mudanças no combate ao crime
Publicado em · Fonte: g1

A aprovação da PEC da Segurança Pública pelo Senado Federal representa um passo importante na tentativa de reorganizar a política de segurança no Brasil e fortalecer o combate ao crime organizado. A proposta, aprovada em dois turnos, promove mudanças na Constituição Federal, amplia mecanismos de integração entre as forças policiais e estabelece novas diretrizes para a atuação da União, dos estados e do Distrito Federal. Entre os principais pontos estão o fortalecimento do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), a ampliação das atribuições de determinadas forças policiais e medidas mais rigorosas contra organizações criminosas, milícias e facções.
PEC da Segurança Pública fortalece integração entre governos
Um dos principais objetivos da proposta é consolidar constitucionalmente o , criado por legislação em 2018. A iniciativa busca aproximar o trabalho das instituições federais, estaduais e municipais, permitindo que diferentes órgãos atuem de maneira coordenada diante de ameaças à segurança da população. Na prática, essa integração pode facilitar operações conjuntas, compartilhamento de informações e planejamento de estratégias nacionais.
A participação da União ganha destaque nesse novo modelo, especialmente pela possibilidade de estabelecer diretrizes gerais para o enfrentamento da criminalidade. Estados e Distrito Federal também poderão desenvolver normas relacionadas à organização das forças policiais, às guardas municipais e ao sistema socioeducativo, respeitando as competências previstas na Constituição. A proposta ainda abre espaço para a formação de forças-tarefa intergovernamentais, instrumento que pode ser importante em investigações e operações que ultrapassam os limites territoriais de um único estado.
Esse modelo procura responder a um problema antigo da segurança pública brasileira: a dificuldade de articulação entre instituições que possuem atribuições diferentes, mas frequentemente precisam enfrentar os mesmos grupos criminosos. Quando existe cooperação, o trabalho de inteligência pode ganhar eficiência e as operações tendem a aproveitar melhor os recursos disponíveis. Entretanto, a efetividade dessas mudanças dependerá da regulamentação, do planejamento e da capacidade de execução dos governos envolvidos.
Medidas mais rigorosas contra facções e organizações criminosas
Outro eixo importante da PEC da Segurança Pública está relacionado ao enfrentamento de organizações criminosas, grupos paramilitares e milícias privadas. O texto estabelece mecanismos mais rígidos para determinados crimes, incluindo a previsão de cumprimento de prisão em estabelecimentos penais de segurança máxima ou de natureza especial. A intenção é dificultar a manutenção de estruturas criminosas dentro do sistema penitenciário e reduzir a capacidade de atuação de lideranças que continuam comandando atividades ilegais mesmo quando estão presas.
A proposta também prevê restrições relacionadas à progressão de regime, à liberdade provisória, com ou sem fiança, e à saída temporária. Essas medidas procuram aumentar o rigor das respostas institucionais diante de crimes considerados especialmente graves. Contudo, sua aplicação deverá observar as condições estabelecidas na legislação e as garantias constitucionais, incluindo a individualização da pena e o devido processo legal.
Outro mecanismo previsto é a possibilidade de . Essa medida tem importância estratégica porque organizações ilegais dependem de recursos financeiros, patrimônio e estruturas econômicas para manter suas operações. A retirada desses recursos pode atingir diretamente a capacidade de financiamento de facções e grupos envolvidos em atividades ilícitas.
O combate ao patrimônio criminoso também exige investigações financeiras bem estruturadas, rastreamento de operações suspeitas e cooperação entre diferentes órgãos públicos. Afinal, enfraquecer uma organização criminosa não significa apenas prender seus integrantes, mas também impedir que ela continue movimentando dinheiro e reconstruindo suas estruturas. Nesse sentido, medidas patrimoniais podem representar uma ferramenta relevante para reduzir o poder econômico dessas organizações.
Polícias municipais e novas atribuições da PRF
A PEC também abre caminho para a criação de polícias municipais voltadas ao policiamento ostensivo e comunitário. A possibilidade amplia a discussão sobre o papel dos municípios na proteção da população e na prevenção de crimes. Com essa previsão, as administrações municipais poderão avaliar a organização de estruturas próprias de policiamento, observando os requisitos legais e constitucionais aplicáveis.
A atuação municipal pode ser especialmente relevante em atividades preventivas, proteção de espaços públicos e aproximação entre agentes de segurança e moradores. Entretanto, a criação de novas estruturas policiais exige planejamento financeiro, formação profissional, mecanismos de controle e definição clara das responsabilidades institucionais. Sem esses cuidados, a ampliação do número de corporações pode gerar dificuldades de coordenação em vez de melhorar o atendimento à sociedade.
Outra mudança envolve a Polícia Rodoviária Federal (PRF), cuja atuação poderá ser ampliada para incluir o policiamento de hidrovias e ferrovias. A instituição também poderá prestar apoio a outras forças de segurança quando houver solicitação do governador, conforme as condições previstas na proposta. Essa ampliação considera a importância estratégica das rotas de transporte para a circulação de pessoas, mercadorias e também para o funcionamento de atividades criminosas.
A Polícia Federal e a própria PRF permanecem vinculadas à competência privativa da União, assim como as normas relacionadas às atividades de inteligência. Essa organização procura preservar a estrutura nacional dessas instituições enquanto amplia as possibilidades de cooperação com os governos estaduais. O resultado esperado é uma atuação mais articulada diante de ameaças que exigem respostas para além das fronteiras estaduais.
Próximos desafios para a implementação da PEC da Segurança
A aprovação no Senado representa uma etapa política importante, mas a transformação das regras constitucionais em resultados concretos depende de uma série de providências posteriores. Será necessário organizar procedimentos, estabelecer responsabilidades, definir mecanismos de fiscalização e garantir recursos para que as instituições consigam cumprir suas atribuições. Também será fundamental assegurar que as mudanças sejam aplicadas de maneira compatível com os direitos fundamentais e com o funcionamento do sistema de Justiça.
O debate sobre a segurança pública brasileira envolve questões que vão muito além do endurecimento das penas. Investimentos em investigação, prevenção da violência, inteligência policial, modernização tecnológica e recuperação do sistema penitenciário continuam sendo elementos essenciais para uma política eficiente. A repressão ao crime organizado precisa caminhar junto com ações capazes de reduzir as condições que favorecem a expansão da criminalidade.
A proposta também tem repercussão política para o governo federal, uma vez que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinha defendendo a reorganização da estrutura administrativa responsável pela área e mencionando a possibilidade de recriar o Ministério da Segurança Pública. A aprovação da PEC representa, nesse contexto, um teste relevante de articulação entre o Executivo e o Congresso Nacional. A criação de um ministério, porém, é uma decisão administrativa distinta das alterações constitucionais previstas na proposta.
O verdadeiro impacto da PEC será medido pela capacidade de reduzir a violência, desarticular organizações criminosas e melhorar a proteção oferecida à população. Mais do que modificar dispositivos constitucionais, o desafio será transformar as novas possibilidades legais em ações concretas que produzam resultados duradouros para o país.