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Caso Vorcaro: defesa aponta alterações em celular apreendido e questiona provas da PF

ARTIGO

Caso Vorcaro: defesa aponta alterações em celular apreendido e questiona provas da PF

Publicado em · Fonte: g1

Caso Vorcaro: defesa aponta alterações em celular apreendido e questiona provas da PF
Foto: Reprodução / g1

A defesa de Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) um parecer técnico preliminar que aponta possíveis alterações nos arquivos de seu celular após a apreensão do aparelho, em novembro de 2025. O documento, elaborado a pedido dos advogados, questiona a integridade dos dados utilizados pela Polícia Federal nas investigações e levanta dúvidas sobre os procedimentos adotados durante a custódia do equipamento.

A iniciativa busca esclarecer se houve modificações nos registros digitais enquanto o celular estava sob responsabilidade das autoridades. Para os advogados, a ausência de informações detalhadas sobre quem teve acesso ao aparelho e quais procedimentos foram realizados pode comprometer a confiabilidade das provas utilizadas no inquérito.

Defesa de Vorcaro questiona alterações em arquivos do celular

De acordo com o parecer apresentado ao STF, uma análise técnica identificou movimentações relevantes nos arquivos do aparelho durante o período em que ele já estava sob custódia policial. O levantamento aponta que 657 arquivos teriam sido modificados, incluindo 59 bancos de dados, enquanto outros 436 arquivos teriam sido criados, entre eles 94 imagens e cinco bancos de dados.

Um dos pontos considerados mais importantes pela defesa envolve atividades registradas durante a madrugada entre os dias 17 e 18 de novembro de 2025. Segundo o relatório contratado pelos advogados, entre 23h22 e 2h25 foram identificados 207 eventos de tela, 33 ativações da câmera frontal pelo sistema de reconhecimento facial e três conexões pela porta USB.

A defesa afirma que essas ocorrências precisam ser esclarecidas, principalmente porque o aparelho estaria em modo avião e já se encontrava sob controle do Estado. Os advogados argumentam que não receberam documentação suficiente para identificar os responsáveis pelo manuseio do celular, as justificativas para eventuais intervenções e os resultados dos procedimentos realizados.

A preservação dos registros digitais é fundamental para garantir que as provas utilizadas em uma investigação possam ser verificadas de maneira independente.

Os questionamentos não significam, por si só, que houve adulteração intencional de provas ou interferência criminosa nos arquivos. Alterações em registros digitais podem decorrer de diferentes processos técnicos, como operações do próprio sistema, atualizações de dados e procedimentos de extração, sendo necessário analisar os registros completos para determinar a origem de cada evento.

Advogados pedem acesso aos dados originais e à cadeia de custódia

Além de apresentar o parecer preliminar, os representantes de Daniel Vorcaro solicitaram que o STF determine a preservação imediata dos dados brutos originais extraídos do celular. O pedido também inclui os registros técnicos da coleta, os códigos hash e toda a documentação relacionada à cadeia de custódia do equipamento.

Os códigos hash funcionam como identificadores digitais calculados a partir do conteúdo de um arquivo ou conjunto de dados. Eles permitem verificar se determinada informação permaneceu inalterada entre diferentes etapas de armazenamento e análise, embora sua utilização dependa de procedimentos adequados e registros confiáveis.

Outro ponto levantado pela defesa envolve os lacres utilizados no momento da apreensão. Os advogados querem ter acesso aos registros fotográficos desses lacres, aos documentos que comprovam a posse do aparelho em cada etapa e à identificação das pessoas que tiveram contato com o equipamento antes da realização da perícia.

Segundo a defesa, os pedidos de acesso a esses materiais foram apresentados ao Supremo Tribunal Federal desde 19 de fevereiro de 2026. Entre as informações solicitadas também estão esclarecimentos sobre uma possível participação de pessoas que não pertencem aos quadros da Polícia Federal nos trabalhos periciais.

A documentação é considerada importante porque a cadeia de custódia estabelece o histórico de coleta, armazenamento, transporte, acesso e análise de evidências. No caso de dispositivos eletrônicos, esse controle ganha ainda mais relevância, já que informações podem ser modificadas, apagadas ou acrescentadas por diferentes processos técnicos.

No processo penal brasileiro, a preservação da integridade dos vestígios está relacionada às regras previstas nos artigos 158-A a 158-F do Código de Processo Penal. Esses dispositivos estabelecem procedimentos para documentar o caminho percorrido pelas evidências, permitindo avaliar sua autenticidade e confiabilidade durante a investigação e o julgamento.

Indiciamento de Vorcaro amplia investigações sobre Banco Master e BRB

Enquanto a defesa questiona os procedimentos envolvendo o celular, a Polícia Federal avançou nas apurações sobre possíveis irregularidades relacionadas ao Banco Master e ao Banco de Brasília (BRB). Na quarta-feira, 28 de outubro de 2026, a corporação encaminhou ao STF um relatório parcial com mais de 700 páginas, no qual indicia 15 suspeitos de participação nas condutas investigadas.

Entre os nomes mencionados estão Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, Augusto Lima, ex-sócio do banqueiro, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. O relatório apresenta a avaliação dos investigadores sobre a participação dos suspeitos nos acontecimentos analisados ao longo do inquérito.

Segundo a Polícia Federal, Vorcaro e Paulo Henrique Costa integrariam o chamado núcleo estratégico da organização criminosa investigada. A suspeita apresentada pelos investigadores envolve uma tentativa de viabilizar a aquisição do Banco Master pelo BRB, em operações relacionadas ao período de 2024 a 2025.

É importante destacar que o indiciamento representa uma conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de envolvimento em possíveis crimes. Ele não equivale a uma condenação judicial, nem significa que a responsabilidade criminal dos investigados esteja definitivamente estabelecida.

No mesmo relatório, os delegados solicitaram mais 60 dias para aprofundar as investigações, concluir exames periciais e apresentar informações complementares. O pedido deverá ser analisado pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal.

A continuidade das apurações poderá esclarecer pontos ainda pendentes sobre as operações investigadas, a participação dos envolvidos e a consistência dos elementos reunidos pela Polícia Federal. Também poderá permitir uma análise mais abrangente das evidências digitais contestadas pela defesa.

Integridade das provas digitais pode influenciar os próximos passos do caso

A discussão sobre os arquivos do celular de Daniel Vorcaro acrescenta uma questão técnica relevante a uma investigação que já envolve suspeitas complexas no sistema financeiro. Em processos dessa natureza, mensagens, documentos eletrônicos, imagens e registros de comunicação podem contribuir para reconstruir acontecimentos e identificar possíveis responsabilidades.

Entretanto, a força de uma evidência digital depende não apenas do conteúdo encontrado, mas também da possibilidade de demonstrar sua origem e integridade. Se existirem divergências entre os registros técnicos e a documentação oficial, essas diferenças precisarão ser examinadas por profissionais habilitados e confrontadas com os demais elementos da investigação.

A Polícia Federal, procurada para comentar as acusações apresentadas pela defesa, não quis se manifestar sobre o assunto. Dessa forma, os questionamentos apresentados pelos advogados ainda precisam ser confrontados com os esclarecimentos técnicos e os documentos oficiais correspondentes.

O STF terá papel importante na avaliação dos pedidos de acesso e preservação das informações. A análise judicial poderá ajudar a estabelecer se os procedimentos adotados foram suficientes para garantir a confiabilidade dos materiais e se existem fundamentos para questionamentos sobre sua utilização no processo.

O caso demonstra como a tecnologia se tornou parte central das investigações criminais contemporâneas. Mais do que encontrar informações em aparelhos eletrônicos, é necessário comprovar que elas foram obtidas e preservadas corretamente, garantindo transparência, direito de defesa e segurança jurídica.

A evolução das investigações sobre o Banco Master e o BRB dependerá tanto da apuração das suspeitas financeiras quanto da consistência das provas reunidas. Em um processo que envolve acusações graves e diferentes interesses, o esclarecimento técnico dos registros digitais será essencial para que as conclusões sejam fundamentadas em evidências verificáveis, e não apenas em alegações de qualquer uma das partes.

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