Fachin devolve investigação do INSS a Mendonça, mas mantém caso Master no STF
Publicado em · Fonte: g1

O STF redefine o andamento de duas investigações de grande repercussão nacional: a Operação Sem Desconto, que apura possíveis fraudes envolvendo aposentadorias e pensões do INSS, e a Operação Compliance Zero, relacionada a suspeitas de irregularidades no Banco Master. O presidente da Corte, ministro Edson Fachin, decidiu devolver a investigação sobre os descontos indevidos ao ministro André Mendonça, mas manteve temporariamente sob sua responsabilidade os procedimentos relacionados ao banco. A decisão, anunciada em 29 de outubro, ocorre em meio a divergências entre integrantes do Supremo e questionamentos sobre a condução dos inquéritos.
A medida estabelece caminhos diferentes para dois casos que ganharam destaque no cenário político e jurídico brasileiro. Enquanto a apuração sobre o INSS volta à relatoria de Mendonça, o processo envolvendo o Banco Master permanece excepcionalmente na Presidência do STF, com prazo limitado e condicionado a acontecimentos processuais específicos.
Fachin divide responsabilidades nas investigações do STF
A decisão de Edson Fachin representa uma tentativa de organizar o andamento de investigações que passaram a envolver questões institucionais delicadas. Os procedimentos haviam sido encaminhados à Presidência do Supremo em 12 de setembro, depois que surgiram referências a autoridades com prerrogativa de foro, incluindo integrantes da própria Corte.
Na ocasião, também foi considerada uma representação apresentada pelo ministro Alexandre de Moraes, que levantou suspeitas sobre a atuação de André Mendonça na condução dos casos. O documento mencionava possíveis irregularidades relacionadas tanto à investigação dos descontos indevidos no INSS quanto ao processo envolvendo o Banco Master.
Ao decidir devolver a Operação Sem Desconto a Mendonça, Fachin estabeleceu que a investigação voltará a tramitar sob a responsabilidade do ministro que anteriormente exercia sua relatoria. Já no caso Master, a Presidência continuará responsável pelos procedimentos, em caráter excepcional e provisório.
Essa distinção é importante porque demonstra que as duas investigações, embora tenham sido encaminhadas à mesma instância administrativa, possuem circunstâncias processuais próprias. A decisão também evita tratar automaticamente os questionamentos apresentados sobre uma investigação como motivo suficiente para alterar a condução da outra.
Caso Banco Master permanece sob responsabilidade de Fachin
A investigação relacionada ao Banco Master continuará na Presidência do STF pelo prazo máximo de 90 dias, contado a partir de 12 de setembro. Entretanto, esse período poderá terminar antes caso aconteça algum dos eventos estabelecidos na decisão de Fachin.
Entre as condições está a conclusão do julgamento no Supremo que discute a possibilidade de abertura de uma investigação sobre Alexandre de Moraes por suposto envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Também foram considerados o encerramento do prazo de vista solicitado pelo ministro Flávio Dino e a entrega de um relatório da Polícia Federal sobre menções a ministros do STF nas apurações relacionadas ao banco.
O julgamento mencionado por Fachin havia sido suspenso em 15 de setembro, antes que os ministros começassem a discutir o mérito da questão. Na sessão, o debate estava concentrado em aspectos processuais, como a eventual reunião dos procedimentos, a redistribuição da relatoria por sorteio e a abertura de prazo para manifestação da Procuradoria-Geral da República.
Uma questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes e Flávio Dino levou os ministros a examinarem como os diferentes processos deveriam ser organizados. Dino pediu mais tempo para analisar o assunto, interrompendo a sessão quando o placar estava em quatro votos a três pela manutenção de análises separadas sobre as condutas atribuídas a Moraes e a Mendonça.
A separação dessas análises possui relevância institucional porque os questionamentos envolvem situações distintas. De um lado, estão as suspeitas relacionadas à atuação de Moraes e sua suposta relação com Vorcaro; de outro, os questionamentos apresentados sobre a maneira como Mendonça conduziu a investigação envolvendo o Banco Master.
Mensagens entre Moraes e Vorcaro ampliaram a crise institucional
Um dos elementos que aumentaram a repercussão do caso foi a divulgação de documentos que apontaram a existência de 52 mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. Também foram mencionados encontros presenciais entre os dois e um contrato de R$ 130 milhões firmado entre o banco e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes.
Essas informações provocaram forte repercussão pública e ampliaram os questionamentos sobre possíveis relações entre integrantes do poder público e agentes do mercado financeiro. É importante, porém, distinguir a existência de registros e contratos de uma eventual comprovação de irregularidade, que depende de investigação e análise das autoridades competentes.
A divulgação dos documentos também desencadeou um confronto entre Moraes e Mendonça. Moraes acusou o colega de realizar uma liberação seletiva dos autos e de deixar informações de fora, levantando dúvidas sobre a transparência da condução processual.
Mendonça, por sua vez, contestou as acusações e afirmou que o sigilo havia sido mantido apenas sobre informações necessárias à preservação de investigações em andamento e de dados pertencentes a terceiros. O episódio evidenciou a dimensão do conflito entre os ministros e colocou em destaque a importância do equilíbrio entre publicidade processual e proteção de informações sensíveis.
Pedido contra Mendonça e os impactos para a credibilidade do STF
A origem de parte desse embate está em uma representação encaminhada por Alexandre de Moraes a Edson Fachin em 3 de setembro. No documento, Moraes solicitou a investigação da atuação de Mendonça nos casos relacionados ao Banco Master e ao INSS, apontando possíveis indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade e favorecimento a determinados grupos políticos.
As alegações apresentadas representam acusações que precisam ser examinadas pelas instâncias competentes, não podendo ser tratadas como irregularidades definitivamente comprovadas. A análise de eventuais responsabilidades exige respeito ao devido processo legal, à ampla defesa e à avaliação objetiva das provas disponíveis.
A representação foi apresentada no âmbito do inquérito das fake news, cuja relatoria passou a ser exercida por Fachin em 9 de setembro. Nesse contexto, a decisão de manter temporariamente o caso Master na Presidência e devolver a investigação do INSS a Mendonça acontece em um ambiente de forte sensibilidade institucional.
Outro acontecimento relevante foi a determinação de Fachin, em 28 de outubro, pelo arquivamento de cinco investigações derivadas do inquérito das fake news. Embora esse episódio tenha contexto próprio, ele integra uma sequência de decisões que colocam o presidente do Supremo no centro de discussões importantes sobre os limites e a organização das investigações conduzidas pela Corte.
A situação também chama a atenção para a necessidade de preservar a independência dos ministros e garantir que eventuais suspeitas envolvendo autoridades sejam examinadas com critérios transparentes. Quando integrantes do próprio tribunal passam a questionar publicamente a atuação uns dos outros, a confiança da sociedade nas instituições pode ser afetada.
O acompanhamento dos próximos passos será fundamental para compreender os desdobramentos dos dois casos. A entrega do relatório da Polícia Federal, o andamento das discussões no plenário e a definição sobre a responsabilidade pelas investigações poderão modificar o cenário estabelecido pela decisão de Fachin.
A questão central ultrapassa a disputa entre ministros. O funcionamento adequado da Justiça depende de regras claras, decisões fundamentadas e mecanismos capazes de assegurar que autoridades públicas também estejam sujeitas à fiscalização. Em investigações de grande repercussão, especialmente aquelas que envolvem aposentadorias, recursos financeiros e possíveis relações entre agentes públicos e instituições privadas, .